Adoção de Produtos Digitais
Vamos falar um pouco sobre a adoção de produtos digitais. Esse texto é sobre minha ótica.
Recentemente, foi
lançado o AI Pin, um dispositivo que chamamos de interface vestível. Utilizando
inteligência artificial, ele tem como objetivo substituir os smartphones (uma
tarefa hercúlea). Se será adotado pelo público, só o futuro nos dirá; teremos
que esperar para descobrir. Quando falamos em adoção de produtos, surge o
fenômeno do Chat GPT, que em apenas 5 dias alcançou a marca de um milhão de
usuários ao ser aberto ao público, tornando-se uma verdadeira febre nas redes.
Entretanto, essa introdução me fez lembrar de uma história de cerca de 10 anos atrás, quando decidi me aventurar no mundo do entretenimento e trabalhei como designer de efeitos visuais. Naquela época, participava de diversos grupos nas redes sociais com vários artistas da área. Em um desses grupos, houve uma discussão sobre a possibilidade de fazer vídeos na vertical. Naquele período, as pessoas começaram a postar muitos vídeos na vertical devido ao WhatsApp e Snapchat aceitarem esse formato. Não sei se era por falta de habilidade das pessoas ou se era mais fácil (pode ser um estudo interessante, já que todos começaram a ter smartphones), mas virou uma loucura. Até então, todos gravavam horizontalmente, e as plataformas digitais estavam preparadas para vídeos nesse formato. No entanto, as plataformas tiveram que se adaptar ao contexto do usuário, que passou a gravar vídeos na vertical. Mesmo com tutoriais ensinando a colocar na posição horizontal, as plataformas tiveram que ceder ao vídeo vertical. Assim, surgiram plataformas como TikTok e Instagram (este último teve que se adaptar ao formato vertical) que utilizaram esse contexto a favor do modelo de negócio.
Outro exemplo é o uso de "@" para identificar
alguém em redes sociais. Anteriormente, era usado apenas em e-mails e
programação, mas esse comportamento foi moldado pelos usuários das redes
sociais e incorporado pelas plataformas como uma feature, tornando-se um
comportamento natural em qualquer rede social.
Esses são exemplos de comportamentos que os usuários
impuseram às plataformas. No entanto, há também o caminho inverso, em que as
plataformas moldam o comportamento do usuário. O exemplo mais emblemático é o
Uber. Na mesma época dos exemplos anteriores, se eu dissesse que você poderia
pedir para uma pessoa desconhecida te levar de um ponto A para um ponto B e
pagar como se fosse um táxi, mas podia ser o seu vizinho, você provavelmente
diria: "Eu nunca entraria em um carro de uma pessoa estranha". No
entanto, o Uber conseguiu moldar o comportamento das pessoas, transformando
caronas em algo normal e até profissional, como pessoas que trabalham como
motoristas de Uber.
Nem tudo são flores. Temos outros exemplos não muito bons,
como as timelines infinitas das redes sociais criadas pelo Facebook.
Antigamente, as timelines eram finitas (quem lembra do Orkut?), permitindo ver
apenas as atualizações dos amigos. O Facebook introduziu as timelines
infinitas, que parecem uma máquina de caça-níqueis. Ao acabar de ver todas as
atualizações da timeline, o usuário puxa para baixo e atualiza, gerando a
sensação de recompensa ou uma curtida dos amigos par sentirmos a sensação de aceitação.
Isso são artifícios para manter o usuário mais tempo na plataforma, já que,
como mencionado no texto anterior, tudo se resume a negócios. Toda plataforma
quer moldar o usuário para ganhar a sua atenção, já que a vida moderna é sobre
atenção. A Netflix achou que o concorrente deles seriam os outros streamings,
mas estavam enganados foi o Tiktok o adversário da plataforma. Isso pode gerar
dependência da plataforma, o que não é algo positivo, pois o uso excessivo pode
resultar em compulsão. No entanto, as redes sociais não são totalmente ruins;
basta usá-las com parcimônia, e seu cérebro agradecerá.
Retomando o assunto, o que faz as pessoas escolherem o
WhatsApp em vez do Telegram, ou o Uber em vez do táxi, é o comportamento. Se o
usuário não adotar o seu produto, mesmo que seja o mais tecnológico, como o
Google Glass, pode não ser aceito (não somos os únicos que queremos ser
aceitos). Se você deseja saber se um produto atingirá a participação de mercado
(um sonho para todos que trabalham com redes digitais), observe o comportamento
do seu usuário, que pode ter inúmeras variáveis como resolver um problema de
momentânea como afastar o tédio até uma necessidade de locomoção. No entanto,
vou parar por aqui, pois, se não, o texto ficará muito extenso. Isso é apenas
algo que eu queria compartilhar há algum tempo, mas nada muito acadêmico. Até a
próxima.
DUARTE, Fabio . Number of ChatGPT Users (Dec 2023). ChatGPT
User Growth, 2023. Disponível em: Number of ChatGPT Users (Dec 2023).
Acesso em: 04 dez. 2023.
HUMANE, Humane. This is the Humane Ai Pin. vídeo,
2023. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=9lNIwOOMVHk&ab_channel=humane. Acesso em:
04 dez. 2023.
HARTMANN, Marcel . Vídeo na vertical ou na horizontal: o que
é melhor?: Especialistas comentam o que influencia na hora de posicionar o
smartphone ou a câmera. Toada Natéria, 2017. Disponível em:
https://gauchazh.clicrbs.com.br/tecnologia/noticia/2017/12/video-na-vertical-ou-na-horizontal-o-que-e-melhor-cjbidl9g202qy01lss0cq8j9d.html.
Acesso em: 04 dez. 2023.
UBER, Equipe. Fatos e Dados sobre a Uber: A Uber é uma
empresa de tecnologia que que cria oportunidades ao colocar o mundo em
movimento. Toda Matéria, 2023. Disponível em:
https://www.uber.com/pt-br/newsroom/fatos-e-dados-sobre-uber/. Acesso em: 04
dez. 2023.
PEREIRA, Renata Gonçalves. Arroba, o que é? Para que serve,
qual sua origem e importância: Apesar de ser um símbolo conhecido pelas pessoas
atualmente, a arroba é mais antiga do que você pode imaginar e possui mais de
uma função.. Toda Matéria, 2021. Disponível em:
https://segredosdomundo.r7.com/arroba-simbolo/. Acesso em: 04 dez. 2023.
BRASIL, Bbc News. Quatro truques de design que nos tornam
viciados em celulares. Toda matéria, 2018. Disponível em:
https://www.bbc.com/portuguese/geral-44673929. Acesso em: 04 dez. 2023.
LOAIZA, Melissa Velásquez; MELO, Carolina . Carência por
like está quimicamente relacionada ao vício, alerta especialista: Diretor
científico da Associação Americana de Psicologia diz que as redes sociais
ativam regiões do cérebro relacionadas à sensação de “quero mais”. Toda
Matéria, 2021. Disponível em:
https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/carencia-por-like-esta-quimicamente-relacionada-ao-vicio-alerta-especialista/.
Acesso em: 04 dez. 2023.
MOSCHEN , Vinícius ; MOTÉ , Wallace. Google Glass chega ao
fim da linha com encerramento do Enterprise 2. Toda Mat~eria, 2023.
Disponível em:
https://canaltech.com.br/wearable/google-glass-chega-ao-fim-da-linha-com-encerramento-do-enterprise-2-243364/.
Acesso em: 04 dez. 2023.
KOETSIER, John. Netflix vs TikTok: a batalha entre longo e
curto: Mesmo em tempos de inflação pós-pandemia, a Netflix ainda é o gigante do
streaming com mais clientes do que qualquer outro serviço OTT. Toda Matéria,
2022. Disponível em:
https://forbes.com.br/forbes-tech/2022/05/netflix-vs-tiktok-a-batalha-entre-longo-e-curto/.
Acesso em: 04 dez. 2023.